Proposta de um Programa de Higiene Ambiental em Fazendas Leiteiras: Melhoria da Qualidade do Leite

abr 10, 2012   //   de admin   //   Blog, Blog, Gestão, Qualidade  //  Nenhum Comentário

Guilherme Augusto Vieira (Médico Veterinário, Doutorando em História das Ciências Agrárias, Professor do Curso de Veterinária da Unime- Bahia, Autor do livro: Como montar uma farmácia na fazenda) 

A pecuária leiteira apresenta vários processos produtivos especializados ao longo de suas atividades, deixando de ser uma atividade simples e de subsistência para se tornar uma atividade com finalidade empresarial e econômica.

A exploração moderna e tecnificada da pecuária leiteira envolvem a produção de leite de alta qualidade, “seguro”, com baixos níveis de contaminação microbiológica e a manutenção de um alto padrão sanitário do rebanho.

O leite, por natureza, é um alimento rico em nutrientes contendo proteínas, carboidratos, gorduras, vitaminas e sais minerais. Sua qualidade é um dos temas mais discutidos atualmente dentro do cenário nacional de produção leiteira. Depois de secretado do úbere, o leite pode ser contaminado por microrganismos a partir de três principais fontes: de dentro da glândula mamária, da superfície exterior do úbere e tetos, e da superfície do equipamento e utensílios de ordenha e tanque (SANTOS e FONSECA, 2001).

Um dos principais problemas encontrados em fazendas leiteiras é a grande produção de resíduos orgânicos produzidos durante os vários processos operacionais diários na propriedade (CAMPOS, 1998; FONSECA e SANTOS, 2000). De acordo com os autores, a concentração de animais em uma área reduzida (realização de operações ordenha, alimentação e tratamentos) promove uma grande formação de lama, que na maioria das vezes é resultante de uma mistura de esterco, urina, barro e umidade.

Conseqüentemente, esta passa a ser uma fonte crítica de patógenos associados à ocorrência de mastite e microrganismos que afetam a qualidade do leite.

De acordo com Sobestiansky (2002), Um bom programa de limpeza e desinfecção é a base para uma boa saúde animal, uma vez que, em condições de confinamento, a gravidade e a ocorrência das enfermidades estão diretamente relacionadas ao nível de contaminação do ambiente.

Com o objetivo de propor melhorias na qualidade do leite e também na saúde dos rebanhos leiteiros, o presente artigo tem como principal objetivo apresentar uma proposta de um programa de higiene ambiental (PHA) em fazendas leiteiras, não focando apenas na higiene da ordenha e do tanque de expansão, mas pensando na fazenda como um todo.

II – Programa de Higiene Ambiental de Granjas Leiteiras

Conforme Vieira de Sá, (1979) o processo de higiene nas fazendas de leite possui dois objetivos: Preservar a saúde dos animais (evitando a proliferação de doenças e stress) e evitar a contaminação do leite (impedindo a deterioração e a proliferação de microrganismos deteriorantes e patogênicos). O mesmo autor considera que todo o processo de higienização, incluindo as etapas de limpeza e sanitização deve ser de caráter geral e abranger todos os processos presentes na fazenda leiteira.

Vieira (2007) enfatiza que em uma fazenda de produção leiteira estão presentes vários processos que envolvem a higiene, desde a higiene do pessoal passando pela higiene do ambiente, incluindo a higiene dos tanques de armazenamento e higiene da ordenha, conforme demonstrado no quadro 1.

Quadro 1 – principais processos de higiene que ocorre em uma fazenda de produção leiteira.
 

A adoção do programa de higiene ambiental (PHA) nas fazendas leiteiras tem o objetivo de sistematizar os vários processos de higiene realizados em suas propriedades, lembrando que os proprietários já o realizam de maneira intuitiva.

A adoção de um Programa de Higienização Ambiental nas granjas leiteiras constitui um importante fator preventivo na produção de leite “seguro” e higiênico, além de controlar as doenças nos animais e aumento da produtividade. Dentre os benefícios que traz ao produtor, pode-se citar:

– Melhoramento do desempenho e da produtividade;

– Diminuição com gastos de medicamentos;

– Diminuição da incidência de mortes de bezerros;

– Diminuição dos gastos com mão -de – obra;

– Diminuição da incidência de colibacilose, mastites ambientais, doenças parasitárias e respiratórias.

As principais etapas do Programa de Higiene Ambiental são:

– Processos de higiene da ordenha;

– Higiene dos estábulos e/ou sala de ordenha;

– Higiene e limpeza dos bezerreiros;

– Manejo de dejetos e detritos;

– Controle integrado de Pragas;

– Escolha dos desinfetantes e detergentes;

– Rodiluvios, pedilúvios e pulverização dos veículos;

– Educação sanitária dos funcionários e proprietários.

III – As principais etapas do PHA.

A seguir serão descritas as principais etapas do Programa de Higiene Ambiental em fazendas leiteiras.

A) – Processos de higiene da ordenha

Segundo Amiot (1991), uma ordenha mal conduzida compromete a qualidade do leite, promovendo sua contaminação, principalmente por deficiências na higiene das tetas, mão dos ordenhadores e materiais envolvidos.

Há dois processos distintos de ordenha: Ordenha manual e ordenha mecânica:

A ordenha manual consiste na extração do leite por meio de contrações manuais. No processo ocorre a espremedura do teto que se encontra cheio de leite e que a mão do ordenhador comprime-o progressivamente de cima para baixo obrigando o leite a sair para o exterior. Segundo Neiva (1991), neste processo pode levar a baixa qualidade do leite, se não forem observados todos os padrões de higiene, principalmente do ordenhador, das tetas e dos recipientes.

A ordenha mecânica consiste na extração do leite por intermédio de máquinas.

Degasperi e Piekarski (1988) e Neiva (1991), destacam que a ordenha deve ser realizada em ambientes tranqüilos, limpos e higienizados, como também os recipientes de manuseio e tanques para armazenamento do leite. Deve obedecer a horários, devendo ser rápidas, contínuas, suaves e de fácil execução. Enfatizam ainda, que devem seguir uma seqüência: higienização da mão do ordenhador (manual ou mecânica), depois lavagem e secagem do úbere, remoção dos primeiros jatos, procedimentos manuais (ordenha manual) – colocação das teteiras (ordenha mecânica), retirada das teteiras, aplicação de antissépticos e soltura dos animais.

B) Higienização de estábulos e salas de ordenha

A higiene dos estábulos e salas de ordenha deve ocorrer diariamente e/ou após a saída dos animais (logo após o “trato” das vacas em lactação e ordenha).

Os pisos de paralelepípedos, presentes na maioria dos estábulos das nossas fazendas, dificultam bastante a higienização, pois fezes, detritos, restos de rações, fômites, secreções e demais dejetos acumulam-se nas frestas e reentrâncias favorecendo a proliferação de microrganismos e insetos.

A má higienização destes pisos favorece a incidência de mastites ambientais e doenças parasitárias e infecciosas, principalmente em animais jovens. Portanto, os funcionários responsáveis pela operação de limpeza e higiene destes locais devem fazê-la de modo criterioso, com um bom jateamento de água nas frestas e aplicação corretas dos detergentes e desinfetantes em todo o ambiente.

C) Higiene e limpeza de bezerreiros

Estas instalações devem ser limpas e desinfetadas diariamente. Se tiver cama de capins, deve-se promover a retirada da cama conjuntamente com as fezes e partes úmidas, logo em seguida colocando nova “leva” de capins, limpos e higiênicos. Estes procedimentos preventivos evitarão perdas por diarréias e demais doenças.

Se o local do bezerreiro for de alvenaria e cimentado, promover o jateamento de água, com aplicação de detergentes e desinfetantes. Lembrando que em ambos os locais não deve permanecer a umidade que é fator importante no aparecimento de doenças respiratórias.

D) Manejo de dejetos e detritos

Um dos principais problemas encontrados em fazendas leiteiras é a grande produção de resíduos orgânicos produzidos durante os vários processos operacionais diários na propriedade (CAMPOS, 1998; FONSECA e SANTOS, 2000).

A principal falha no manejo de dejetos é o seu destino. A construção de esterqueiras é de fundamental importância para o controle higiênico-sanitário das propriedades. Todos os produtores de leite sabem da importância deste assunto, pois além de controlar insetos alados, o tratamento de dejetos gera benefícios diretos e indiretos com a utilização do esterco tratado nas lavouras, além da melhoria do aspecto das instalações.

A estequeira não pode ser subdimensionada, pois acarreta a necessidade de remoção mais frequente do material tratado, além de prejudicar a fermentação das fezes e promover o extravasamento do conteúdo para o ambiente e cursos d água, contaminando o meio ambiente e favorecendo a proliferação de insetos. A esterqueira também não deve ser construída próxima a cursos de água.

E) Controle integrado de pragas

A presença de pragas em instalações leiteiras está associada ao péssimo estado higiênico das instalações. As mais comuns são os insetos alados (moscas) e roedores.

As moscas, segundo Pardi et al., carregam enterobactérias que vão contaminar o ambiente e os alimentos. As maiorias dos produtores utilizam inseticidas, esquecendo a adoção de medidas higiênicas das instalações, principalmente a higiene das instalações e o manejo correto do esterco produzido na fazenda.

O método recomendado é a utilização do Controle Integrado de Pragas, com ações físicas e químicas, como manejo adequado dos dejetos, medidas higiênicas, utilização correta dos inseticidas com alternância de bases químicas a fim de se evitar a resistência.

Os roedores devem ser combatidos nas áreas externas (tocas) e internas, principalmente nos depósitos de rações e grãos. Transmitem a leptospirose, que entre outra coisa provoca aborto nas vacas, alem de serem letal para seres humanos e demais animais. O uso de rodenticidas deve ser adotado seguindo critérios preconizados pelos fabricantes.

F) Escolha dos detergentes e desinfetantes

Geralmente os fazendeiros compram detergentes e desinfetantes utilizando como critérios a variável custo, sem se preocupar com os critérios técnicos. Recomenda-se a indicação de desinfetantes e detergentes por parte de técnicos responsáveis. Deve-se evitar a “empurroterapia” utilizada nas lojas de produtos agropecuários, lembrando que cada produção possui uma realidade diferente.

O desinfetante ideal deve possuir algumas características:

– Potência e seletividade contra microrganismos alvos;

– Baixo custo;

– Ausência de toxicidade para animais e os manipuladores;

– Amplo espectro de ação antimicrobiana;

– Estabilidade química;

OBS. Um desinfetante deve ser sempre utilizado na dosagem preconizada, evitando a idéia de baixar dose e custo, pois não se obtém o efeito desejado, além de poder ocorrer uma seleção de microrganismos resistentes.

G) Usos de rodolúvios e pedilúvios

Os novos tempos da pecuária leiteira requerem modificações em sua estrutura. Uma delas é a adoção de rodolúvios com arco de higiene, pois com a coleta granelizada, os caminhões percorrerão várias propriedades desprovidas de medidas higiênico-sanitárias e com isto poderão tornar-se disseminadores de infecções.

O rodolúvio deve estar localizado na entrada da granja e apresentar as seguintes características:

– Ser plano;

– Ter um “quebra-molas” para que os veículos passem obrigatoriamente devagar;

– O piso deve ser firme;

– O comprimento deve ser suficiente para que as rodas dos veículos sejam cobertas pela solução;

– Deve ter depósito para receber a solução usada;

– Deve ter um ralo de retorno. Os pedilúvios devem estar localizados na entrada da granja e saída de cada instalação. Podem ser em caixa de metal, madeira ou em formas de caixa de concreto integrada na própria construção do piso com um sistema de drenagem pr´prio. Sua largura deve ocupar a largura da porta e ter um comprimento tal que evite que o funcionário ou visitante, ao dar um passo, deixe de pisar na solução.

A solução desinfetante dos pedilúvios deve ser trocada diariamente enquanto que a dos rodolúvios semanalmente, desde que esteja protegido contra chuvas.

H) – Educação sanitária dos funcionários e proprietários.

Na execução diária das atividades em fazenda de produção leiteira, os funcionários devem ser orientados e treinados no sentido de desenvolver aspectos de higiene pessoal.

As Cooperativas e agroindústrias leiteiras devem promover programas contínuos de educação sanitária para os colaboradores das fazendas assim como os seus proprietários.

A educação sanitária desenvolverá aspectos de higiene e conseqüentemente ocorrerá uma melhoria na qualidade do leite. O funcionário que trabalha diretamente na produção do leite, em nível de fazenda, deve ser enquadrado na categoria de profissionais manipuladores de alimentos.

Deve-se também promover campanhas educativas no sentido de conscientizar os trabalhadores rurais a se vacinarem com vacinas anti-rábicas e antitetânicas.

IV – Considerações

O presente artigo não teve o intuito de “ensinar o Padre Nosso ao vigário”. Os fazendeiros já realizam todos os processos descritos em suas fazendas diariamente.

O objetivo final do artigo foi apenas propor uma sistematização dos processos de higiene ambiental em fazendas leiteiras com finalidade de produzir um leite de qualidade.

O Brasil precisa cada vez mais melhorar a qualidade do seu leite para poder se firmar como um dos maiores produtores de leite, não só de modo quantitativo, mas também de qualidade. Neste ponto a higiene é de fundamental importância.

V- Referências

– AMIOT, Jean.Ciencia y Tecnología de la leche, Zaragoza : Acríbia, 1991

– BRITO, J. R., BRITO, M. A.V.P. Qualidade higiênica do leite. Juiz de Fora: EmbrapaGado de leite,1998 ;

– CAMPOS, A. – Manejo De Dejetos De Bovinos – In: Congresso Brasileiro De Engenharia Agrícola, 27 ,1998, Poços De Caldas. Anais, Sociedade Brasileira De Engenharia Agrícola, 1998. P.233-279;

-DEGASPERIS. A.R.;PIEKARSKI, P. R.B. – Bovinocultura Leiteira:Planejamento,Manejo e Instalações –Curitiba:Livraria do Chain Editora,1988;

-FONSECA, L.F.; SANTOS,M. – Qualidade do leite e controle de mastite – São Paulo:Lemos Editorial,2000.

– FONSECA, L. F.e SANTOS, M. V. -Importância e Efeito de Bactérias Psicrotróficas sobre a Qualidade do Leite.IN: Higiene Alimentar. V.15,n82,p.13-19,Março 2001;

-NEIVA, Rogério Santoro – Bovinocultura de Leite –Lavras,MG :ESAL/FAEPE,1991;

– SOBESTIANSKY, J. Sistema Intensivo de produção de suínos: Programa de biossegurança. Goiânia: Pfizer, 2002;

– SÁ, M. VIEIRA de; SÁ, F. Vieira de. As vacas leiteiras. 6 ed. Lisboa: Livraria Clássica Editora,1979.

– VIEIRA, G. A. – Apontamentos de aulas – UNIME- FTC- Fundação Visconde de Cairú ,2007

 Fonte: Milkword
http://www.milkworld.com.br/noticias/post/proposta-de-um-programa-de-higiene-ambiental-em-fazendas-leiteiras-melhoria-da-qualidade-do-leite

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